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  • Biblioteca Escolar - Escola Secundária de Vila Real de Santo António
  • sábado, janeiro 23, 2010

    O que ela anda a ler


    Respeitámos a privacidade de Keti Angelova

    A Paixão de Descartes, Teresa Moure

    A compra deste livro foi totalmente inesperada. Encontrei-o, um dia por acaso, enquanto procurava comprar um outro. Reparei no título, folheie-o e não resisti levar! Posteriormente, vim a saber que tenho nas mãos uma obra notável que ganhou vários prémios, entre os quais: o Prémio da Crítica Espanhola 2006, o Prémio Xerais de Romance 2005, o Prémio da Associação de Escritores em Língua Galega 2005, o Prémio Benito Soto 2005 e o Prémio Irmandade do Livro 2005.
    Apesar de ainda não ter concluído a sua leitura, acho-o interessantíssimo, tanto pela maneira como a acção se desenrola como pela maneira como a autora decidiu contar-nos a história. Os capítulos dividem-se entre a história principal e excertos do Livro de Mulheres de Hélène Jans (a amante da rainha Cristina da Suécia), que aparecem alternadamente.
    Pelo título percebemos que se trata da vida íntima de Descartes (filósofo notável durante o século das luzes, que foi considerado “o pai da filosofia moderna”), algo impossível de passar despercebido. E isto porque, este filósofo ficou conhecido na história pelo uso do racionalismo e pela criação da dúvida metódica. Ele definia o raciocínio como operação mental, discursiva e lógica. Duvidava de tudo até ao fim, de maneira a obter a verdade (só a verdade pura é que resistia a todas as interrogações e dúvidas).
    Neste livro, pelo contrário são retratados episódios da sua vida que não constam nas biografias tradicionais. Três mulheres (a rainha Cristina da Suécia que era sua amiga íntima e presenciou os últimos meses da vida de Descartes, a amante da rainha, Hélène Jans e Inés Andrade uma estudante que vive nos dias de hoje, através da qual a autora do livro procurou mostrar-nos o lado desconhecido deste homem) são protagonistas e testemunhas privilegiadas da vida e das emoções do grande filósofo que não soube amar e que viveu nesse triste vazio cavado pela paixão mal vivida.

    «Um notável romance que mistura a contemporaneidade – uma estudante de Descartes – com o tempo em que se insere a acção da pesquisa. Através do filósofo francês, a autora fala-nos do Século das Luzes e de mulheres brilhantes.»
    Elle

    «Uma obra intensa e memorável que dá voz ao espírito rebelde e ao desejo de liberdade das mulheres.»
    El País



    No teu Deserto, Miguel Sousa Tavares
    Apesar de o tema destas publicações ser “O Que Eles Andam a Ler”, atrevo-me a partilhar com vocês um livro que já li no fim deste Verão. Trata-se do último romance de M. S. Tavares e da sua história invulgar que marcou todos os que a leram.
    O romance é dedicado, como percebemos no início do livro, à Cláudia – que é protagonista da história e que já faleceu. É assim que tudo começa a ser contado, uma história que se passou há vinte anos, que desperta o nosso interesse desde a primeira página, não permitindo que descansemos, sem saber o que realmente aconteceu. O autor é, igualmente, protagonista da narração, mas ao longo da leitura deparamo-nos com a inversão de papéis, em que ele deixa de ser narrador e passa a “ouvir”as confissões de Cláudia, nunca reveladas até então.
    Os protagonistas conhecem-se momentos antes de abalarem juntos para a travessia do deserto de Sahara. A sua história de amor é breve, intensa e verdadeira. À medida que vamos lendo, cada capítulo relata-nos episódios da viagem em que os dois, inconscientemente e irremediavelmente se vão apaixonando.
    O que distingue esta, das outras histórias de amor é que os dois só ultrapassam os preconceitos e descobrem o seu amor quando já é tarde. Cláudia partiu deste mundo sem poder revelar os seus sentimentos ou ficar a saber que estes eram correspondidos.
    Este “quase romance”, assim designado pelo próprio autor, é muito mais do que isso. É romance, é palco de confissões, episódios de alta tensão, comédia, amor e ternura.
    Não deixemos nunca de acreditar que o amor é possível.

    Passagens do livro:
    «Dizem que as fotografias não mentem, mas essa é a maior mentira que já ouvi.(…)
    Fiquei a olhar-te longamente, longa, longa, longamente. E longamente me fui dando conta de que tudo aquilo acontecera mesmo: eu não o sonhara, durante vinte anos. Nisso tecera mesmo: eu não o sonhara, durante vinte anos. Nisso quando guardam para sempre um instante que nunca se repetirá. As fotografias não mentem – esse instante existiu mesmo. Porém, a mentira consiste em pensar que esse instante é eterno, que dois amantes felizes e abraçados numa fotografia ficaram para sempre felizes e abraçados.»

    «Ali estavas tu, então, tão nova que parecias irreal, tão feliz que era quase impossível de imaginar. Ali estavas tu, exactamente como te tinha conhecido. E o que era extraordinário é que, olhando-te, dei-me conta de que não tinhas mudado nada, nestes vinte anos: como nunca mais te vi, ficaste assim para sempre, com aquela idade, com aquela felicidade, suspensa, eterna, desde o instante em que te apontei a minha Nikon e tu ficaste exposta, sem defesa, sem segredos, sem dissimulação alguma.»

    «Muitas vezes me tenho lembrado da Cláudia. Talvez menos do que seria normal, certamente menos do que ela merece. Mas, quando me lembro, vem-me a imagem desse riso ou da fugaz tristeza que às vezes lhe corria nos olhos e em que só estando atento se reparava.»

    «Ao fim de vinte e quatro horas, eu só queria ser boa companhia para ti, para que tu fosses também para mim. Percebi que ia precisar de ti e percebi também que tu ias precisar de mim. A partir daí, foi tudo fácil, mesmo quando tu te zangavas e desatavas a ralhar comigo, chamando-me menina mimada ou inconsciente, e eu ficava calada, a rir-me por dentro e feliz – (devo-te isso: feliz) – porque adorava ouvir-te ralhar. Ao fim de um tempo, percebias que estava a falar sozinho e começavas a perder o ímpeto:
    - Então, não dizes nada?
    - Vá, não te zangues…
    - Pois – respondias tu, desarmado. – Se me zango contigo, vou falar com quem, aqui fechado no jipe o dia inteiro?
    E eu fazia-te uma festa na mão e tu pedias:
    - Acendes-me um cigarro? (…)»

    «Eu sei que ela se lembra, sei que foi feliz então, como eu fui. Mas deve achar que eu me esqueci, que me fechei no meu silêncio, que me zanguei com o seu último desaparecimento, que vivo amuado com ela, desde então. Não é verdade, Cláudia. Vê como eu me lembro, vê se não foram assim, passo por passo, aqueles quatro dias que demorámos até chegar juntos ao deserto.»






    Keti Angelova, 12ºE n14

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