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  • Biblioteca Escolar - Escola Secundária de Vila Real de Santo António
  • sábado, dezembro 15, 2007

    O que eles andam a ler!



    MORRESTE-ME. O mesmo é dizer, fazes-me falta, ficaste-me na alma, no coração, nos espaços todos que o meu ser ocupa, atravessas-me no tempo que habito, partiste-me em dor, angústia e raiva, Mas a memória guarda-me o teu cheiro, as tuas mãos e o teu sorriso. Olho ao espelho e vejo o teu nariz. Olho para as mãos da mãe e vejo as tuas unhas. Estás em nós e eu estou em ti. Eu jamais seria eu sem a tua presença constante na minha vida.
    O primeiro livro de José Luís Peixoto, dedicado ao seu pai que fica para sempre nestas páginas, a olhar com ternura o menino crescido, a vingar no meio literário, a orientar-se na vida. Mas fui eu, outra vez, à procura do meu pai que nunca conheci, que morreu quando eu tinha dois anos e de quem quase não se falou em casa, eu à procura dessa memória dele em mim, eu sozinha, a acender luzinhas na escuridão para afastar o medo. Mas é o fio invisível entre dois seres que se amam a tecer os laços indeléveis e misteriosos, que fazem da vida e da morte um círculo que continuamente (n)os devolve à fragilidade humana e à permanência do amor.
    Podia ser a morte da mãe, ou de um irmão, de uma irmã, do(a) namorado(a), do marido ou da esposa, do nosso(a) melhor amigo(a), do avô ou da avó, de alguém da família ou não, o mesmo sentimento de impotência, a evidência da brevidade da vida, a desesperação em volta do vazio, e os que ficamos, perdidos, à procura de quem perdemos, a tentar recuperar os momentos que vivemos, a lamentar o que não fizemos ou dissemos.
    Também eu queria poder dizer Parto de ti, viajo nos teus caminho, corro e perco-me e desencontro-me no enredo de ti, nasço, morro, parto de ti, viajo no escuro que deixaste e chego, chego finalmente a ti. Pai.

    Maria Matos

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