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  • Biblioteca Escolar - Escola Secundária de Vila Real de Santo António
  • terça-feira, maio 18, 2010

    VIDA E MORTE

    Será que se consegue ver as coisas como elas são? O mistério absorve-nos, absorve-me nos dias que correm... e nunca consigo parar de reflectir sobre a morte, sobre essa situação tão insólita. Tanto se diz, tanto se escreve... mas afinal onde está a certeza? As escrituras dão o seu ponto de vista, especulações tecem-se, são milhares e procuram-se pontos de solução sem que nada venha a ser solucionado. E tudo morre... morrer é ficar separado de algo para sempre. Dói? Vamos enfrentar tal situação? O que motiva as pessoas a procurar respostas? A interrogação é constante...
    Vida e morte, questões muito fortes que agitam o humano em todas as vertentes. Será que existe vida depois da morte? Como é morrer? Pode-se voltar atrás? Para quem acredita, como é? Acreditar não é universal; se não é, para onde se escoa essa mesma validade? Complicado! A morte está à nossa espera, seja velho, seja novo... fatal mesmo. Morre-se das mais diversas situações... "quem de novo não morre, de velho não escapa"! Brutal! Estamos condenados à morte. Um dia desaparecemos misteriosamente...
    Neste percurso de vida, no passar os dias, tudo se vai alterando, as coisas passam a ser diferentes, as posturas... desembocando na grande corrente, no total do nada. Vamos para o portal pós-morte? Como? Uma coisa é estar morto e outra é estar a morrer... vamos morrendo lentamente. Estou mais próximo da morte neste momento do que no momento em que comecei este escrito e tu também! Esta é a grande verdade...
    A necrologia enche os jornais, prepara-nos para a nossa condição e tudo não é mais do que uma situação óbvia. A morte parece que está nos livros, sempre no outro e não em nós, quem morre não diz nada, os vivos é que falam da morte, eu e tu neste agora. O que vem depois? O que diz o morto? Vai a um cemitério e observa atentamente... um silêncio se faz sentir e o que resta de tudo aquilo? Nada. Para que serve? Para nada... a morte não revela os seus segredos... ontem falava com um médico cirurgião e coloquei-lhe algumas questões, para ele quando o doente morre tudo aí acaba. Nada mais é do que um monte e lixo. O assunto da morte é complicado e preocupa-nos... no sábado fui a um funeral de um familiar, observei os rituais... ainda fiquei mais céptico. Distâncias mentais se instauram, o que usa a razão e o que usa a fé para dar resposta ao problema. Tudo o que tem um princípio tem um fim. Todos somos humanos, apesar de vivências diferentes, mas todos morrem... para que serve todas as justificações? Para nada. Fica o nada... a necessidade de acreditar faz-nos diferentes psicologicamente, mas, também não garante o quer que seja. Alimentamos tudo pelo pensamento e na morte não há mais pensamento; em vida temos ilusões e alucinações de como desejamos que a vida fosse para lá da morte e ficamos perturbados, ao ponto que tudo justifica uma imortalidade nos insatisfeitos; ainda se acreditam em crenças do passado ainda que não tenham fundamento... alguns dos meus alunos estão agarrados a isso, confesso que não é fácil demovê-los.
    A natureza tudo reduz ao pó, à mistura das partículas e isolamento das mesmas no cosmos, ainda que eu não queira que as situações sejam assim. E somos assim e assim nos desconhecemos... procuramos outras leituras para preenchimento e nada preenche. Porque será? Lentamente vamos deixando de ser o que somos... até um dia do nosso encontro no pó da natureza.
    Última hora... um colega faleceu, instaurou-se um silêncio dentro de mim. Estranho... lembro dele no bar dos alunos e na sala de professores, no refeitório, falei algumas vezes com ele. Agora como é? Silêncio e paz à sua alma... todas as palavras que se possam proferir em nada o vão recuperar. Estranho todo este percurso... a lei da vida não perdoa. Deixo uma flor e esta flor outras flores virá ocasionar. Vamos e levamos um abraço para apaziguar a dor de que dilacera... agora fica a memória ou memórias que os sentidos recortaram. Em nome do tempo nos tornaremos tempo... todos.

    Vila Real de Santo António, 18 de Maio 2010 - 01:15h
    Jorge Ferro Rosa

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